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Togo: o mercado de feitiçaria

"Viagens Soltas", crónicas de Rui Daniel Silva

26/10/2016 | Fonte: Texto cedido por Rui Daniel Silva

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Rui Daniel Silva | Togo, o mercado de feitiçaria

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  • Togo
  • Togo, no olhar de Rui Daniel Silva
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Togo1 de 6

“Como é andar de táxi em África? Muito simples. Vou tentar ser o mais elucidativo.”

Andar de táxi em África é inimaginável.

Andar de táxi em África é surreal.

Andar de táxi em África é…… um quebra-cabeças, onde a palavra “impossível “ não consta no dicionário.

Perguntar a hora de saída é desnecessário.

Pode ser já, daqui a dez minutos ou mesmo só daqui a algumas horas.

Sai quando estiver cheio ou melhor, a abarrotar.

2 à frente e 3 atrás como estamos acostumados, não faz qualquer sentido. É demasiado espaço desperdiçado. Ainda cabe mais um à frente e outro atrás.

Agora sim.

3 à frente e 4 atrás. Preparados para seguir viagem.

Uma metamorfose estampada nos nossos rostos do riso para o sofrimento, é o que sucede sempre numa viagem destas.

5 minutos de alguma adrenalina e risos, que passam rapidamente para um “Ai, Ui”.

Sem dúvida que o lugar mais confortável para andar de táxi é o do condutor. Um lugar altamente cobiçado por qualquer passageiro.

O objetivo era chegar a uma pequena vila e fazer um trilho até às famosas cascatas de Kpalimé.

À chegada somos interpelados por vários nativos, que querem ganhar dinheiro como guias ou levar-nos de motorizada até à aldeia, onde começa o trilho.

Bem mais confortáveis do que no táxi, seguimos viagem por ruas de terra batida pejadas de buracos.

Numa aldeia onde praticamente não há turismo, somos interpelados pelos mais curiosos.

Não havia qualquer tipo de loja para comprar água.

Com um calor abrasante e abafado encontrámos já depois da aldeia, uma pequena barraca no meio do nada.

Com a esperança que pudéssemos comprar água, dirigimo-nos à tal barraca.

Pergunto se têm água e quando me respondem, que estamos num salão de cabeleireiro, não me consigo conter com uma pequena gargalhada.

Realmente, um local estratégico, para se cortar o cabelo.

E não havia só uma cabeleireira, mas sim, 4 cabeleireiras.

Todas sentadas à sombra, à espera do primeiro cliente.

Apesar de tudo, o desfecho deste encontro não foi mau de todo.

Mandam-nos esperar um pouco, e passados 20 minutos aparece uma rapariga com água.

Antes de seguir caminho, ainda nos ofereceram algumas bananas para a viagem.

Debaixo de um calor infernal, vamos serpenteando veredas e caminhos de areia, rumo às cascatas.

Um declive vertiginoso entre rochas e vales pitorescos transporta-nos para outro mundo.

Estamos em plena selva.

A partir daqui foi só seguir um pequeno riacho até avistarmos finalmente a cascata.

Sem dúvida que este lugar é de uma beleza esmagadora.

Um anfiteatro natural formado à sua volta por rochas, onde a cascata desagua num bonito lago.

É um refúgio perfeito para fugir da grande azáfama da cidade.

De volta à pequena vila, cruzámo-nos com imensas crianças que tinham saído da escola.

Entre alguns sorrisos e acenar de mãos, há sempre um “ Bonjour “ por parte dos mais novos e dos mais velhos.

Outros seguem-nos, querendo conhecer-nos ou simplesmente tocar a nossa pele, por sermos brancos.

No entanto, há sempre uma criança ou outra, que foge por medo ou timidez.

Antes da partida para Lomé, jantámos numa pequena tasca.

Ao invés de alguns países, a comida no Togo é bastante boa. Tem uma apresentação bastante simples, mas é saborosa.

Sendo que a prática do vudu teve as suas origens no Togo e no Benim, decidimos visitar no dia seguinte o mercado de feitiçaria.

Palavras para descrever este mercado? Sinceramente não tenho.

Adjetivos? Tenho imensos, desde o horrível, atroz, cruel, medonho, pavoroso e mais 10 sinónimos relacionados com estes que não me lembro agora.

Disse mais 10 sinónimos? Queria dizer mais 60, sem qualquer exagero.

De todos os mercados que já visitei pelo mundo, este foi sem dúvida o mais chocante e nojento.

Cabeças de cães, de macacos e de gatos.

Peles de serpentes.

Crânios de gatos, de cães, de crocodilos e de ratos.

Um cheiro horrível e uma imagem chocante para quem gosta de animais.

Tudo ali à venda, com um simples propósito.

A cura de alguma doença ou mau olhado.

Em toda a visita, apenas uma vez, esbocei um pequeno sorriso.

Um vendedor queria que eu comprasse algo à força toda. Fosse uma cabeça de macaco ou de cão. Queria era ganhar dinheiro e eu fiquei a pensar para mim mesmo.

Sim, sim. Sou mesmo eu que vou comprar uma cabeça de macaco. Mando fazer um embrulho com um laço cor-de-rosa, e quando chegar a Portugal ofereço à minha mãe.

Mesmo que ela fique chocada ou enojada com este gesto tão bonito da parte do filho, posso sempre dizer:
“ Olha que isto faz bem ao reumatismo! ”



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