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Viagens Soltas: Bali de scooter

23/02/2017 | Fonte: Uma crónica de Rui Daniel Silva.

Quando ela passa fico deslumbrado e embevecido. Aquela silhueta fascina-me. Aquele corpo e aquelas curvas deixam-me extasiado e louco. Mas por ve-zes galga tão rápido que mal a vejo passar e só penso: “Eu também quero uma mota!".

 
E naquele dia não tinha apenas uma mota ou uma scooter à mi-nha frente. Estava na ilha de Bali e em cada viela ou beco, choviam scooters a cântaros. Era simplesmente inacreditável.

Porém, perante tal pandemónio, convenci as minhas três companheiras de viagem a alugarmos uma scooter. Um euro e sessenta, era quanto ficava o aluguer por dia a cada um. Mas va-mos ao que interessa.

 Como é realmente andar de mota ou de scooter na ilha de Bali? Os primeiros adjetivos que me ocorrem são o descabido e o inconce-bível. Sair da cidade de Kuta foi quase uma missão impossível.

Em primeiro lugar, conduz-se pela esquerda, mas este não foi realmente o verdadeiro que-bra-cabeças. O trânsito era uma autêntica confusão e a confusão era o trânsi-to. Uma epidemia de scooters vindas não sei de onde, entupiam o tráfego ao som das constantes buzinas, que eram usadas somente por duas razões. Por tudo e por nada.
Para complicar, alguns condutores não ajudavam nada, pre-gando-nos algumas rasteiras de mau gosto. Ultrapassavam em tudo o que era sítio e depois havia aqueles, que eu os identifico como os verdadeiros pilotos inconscientes e amantes do perigo, que vinham em sentido contrário. Alguns velocípedes transportavam quatro ou cinco passageiros. E não eram magros nem franzinos. Eram pessoas normais como eu. Todos na mesma scooter. Também se viam imensas crianças já a conduzir.

A verdade é que durante quase uma semana, não vimos nenhum acidente rodoviário. Resumindo e concluindo, uns autênticos sedutores, estes meninos na arte de manejar o guiador. Faziam aquilo com uma perna às costas, enquanto que nós nos vía-mos à rasca com as duas pernas no velocípede. Mas como diz o ditado, depois da tempestade vem a bonança, e assim foi.

Passado algum tempo, os nossos corações que tinham sofrido uma certa taquicardia perante tal caos e adrenali-na, voltavam a um ritmo normal. Respirávamos de alívio e tínhamos uma ilha por descobrir e explorar com toda a calma e serenidade. Se tínhamos passado neste teste sem cábulas, a partir de agora seria tudo mais fácil.

Assim como Fernão de Magalhães, deixámo-nos levar ao sabor da brisa. As paisagens eram magníficas. Arrozais e palmeiras davam-nos boleia ao longo de todo este percurso bucólico em tom esverdeado.

Mas o mais impressionante era a quantidade absurda de templos ao longo do caminho. Sem qualquer exagero, viam-se mais templos do que casas.

A primeira paragem foi para visitar um dos tem-plos Hindus mais famosos desta ilha, o Pura Tanah Lot. Este soberbo templo fica sobre um grande rochedo no meio do mar e é de uma beleza rara. É, sem dúvida, o lugar ideal para se fugir da grande azáfama das cidades e se poder respirar alguma calma. Depois de almoço seguimos viagem e as primeiras go-tas de chuva obrigaram-nos a arranjar um abrigo.

Sem qualquer destino eminente, apenas rumávamos para norte. Cada metro e cada curva eram um brin-de inopinado que aceitávamos de bom agrado. E sem dúvida que este é um dos grandes benefícios quando fazemos uma viagem por nossa conta. Temos toda a liberdade para rumarmos ao sabor do momento. Paramos quando que-remos e visitamos o que queremos.

Com um calor infernal, a deslocação em duas rodas é, indubitavelmente, uma das melhores sensações que podemos ter. Um vento suave e fresco facilitava-nos a locomoção. Em contrapartida, também acabámos por sentir o oposto passadas algumas horas.

Curvas contra curvas e uma estrada que não parava de subir, o calor abafado que tínhamos sentido ao longo do dia transformava-se aos poucos num frio indesejado. Por isso mesmo, decidimos parar na primeira povoação que encontrámos, a cidade de Bedugul.

Apesar de Bali ser maioritariamente uma ilha hindu, aqui ouvía-mos as famosas rezas muçulmanas, que se estendiam por toda a cidade, atra-vés dos altifalantes das mesquitas. Pousada encontrada, era hora de dar um certo descanso ao nosso querido veículo de duas rodas e continuar esta aven-tura no dia seguinte.

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