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Viagens Soltas | Índia: Voar para Longe

Uma crónica de Rui Daniel Silva

27/07/2017 | Fonte: Texto cedido por Rui Daniel Silva

Rui Daniel Silva | Índia: Voar para Longe

Viajar numa excursão organizada ou com um guia tem os seus prós e contras. Mas uma coisa é certa, acabamos sempre por visitar uma ou outra loja local.

Há um certo interesse monetário de ambas as partes e se comprarmos algo, os guias recebem uma comissão sobre esse valor.
Viajar de mochila às costas também tem as suas vantagens e desvantagens.

A locomoção é bem mais fácil, mas há um limite de carga. Comprar pequenas recor-dações ou mesmo um livro não traz qualquer tipo de inconveniência, mas quando nos querem impingir uma gigantesca carpete, aí a história já é outra. E eis mais um relato absurdo a juntar-se a um monte enorme de récitas incongruentes em solo indiano.

A caminho da cidade de Jaipur passámos pelo magnífico palácio Jal Mahal.

Uma das características que torna este palácio tão mágico e único, é o facto de se en-contrar no meio de um lago, parecendo um palácio flutuante.

A primeira paragem na cidade de Jaipur foi numa loja de carpetes.

Apesar de não estarmos minimamente interessados em comprar carpetes, alcatifas ou tapetes, entrámos com todo o respeito e demos uma vista de olhos.

Sem sombra de dúvida que as imensas cores a contrastar com desenhos tão minucio-sos elevam estas carpetes a autênticas obras de arte.

O dono era bastante simpático, mas a simpatia em terras de marajá era um estado que mudava em frações de segundos. Mesmo que estivéssemos interessados em comprar uma carpete, seria impossível viajar com algo maior que a minha própria mochila.

Agradecemos a amabilidade, gabando todo o recheio do interior e saímos.

Imediatamente, o dono da loja veio atrás de nós, implorando-nos que comprássemos uma carpete.

Agradecemos mais uma vez, explicando que era inviável adquirir algo tão vultoso.

De imediato, este fulano tinha descoberto a solução para o nosso dilema, dizendo-nos que poderíamos comprar a carpete e enviar pelos correios para casa. No primeiro ins-tante ainda esbocei um sorriso. Já me estava a imaginar a entrar nos correios com uma gigantesca alcatifa e pedir uns quarenta selos para enviar a dita cuja por correio azul.

Mais uma vez agradecemos toda a amabilidade e do nada aquele falso sorriso trans-formou-se num olhar pouco simpático e rude. O homem começou a refilar.

Quem também ficou bastante aborrecido por não temos comprado uma carpete foi o nosso guia e taxista.

Com cara de poucos amigos, ambos já só falavam no vernáculo deles e nem nos liga-vam nenhuma.

Como é óbvio, nem eu, nem a minha amiga, estávamos a usufruir ao máximo desta viagem. Voltámos a entrar no veículo e passados uns breves momentos pararam o carro. O Taxista apontou para uma rua, dizendo que era a rua do mercado e manda-ram-nos sair do carro.

Fiquei meio pasmado sem perceber o que estava a acontecer e perguntei ao taxista se ele não vinha connosco. Com ar de pouco amigos, o condutor respondeu que não.

Meio abismado e sem saber já o que fazer, perguntei de seguida a que horas ele nos viria buscar.

O condutor olhou para nós e com um ar de poucos amigos afirmou que não nos viria buscar, pois o mercado era tão grande que ele nunca nos iria encontrar, e que o melhor seria no final apanharmos num tuk-tuk e ir para o Hotel.

Chateados e com alguma raiva, saímos do táxi. Nada disto fazia sentido.

Com tudo pago, excursões, entradas e guia, estávamos sozinhos no meio de um frenético caos.

O verdadeiro problema não era andarmos sozinhos, já que isso era um dos objetivos no início da viagem. O dilema era uma constante deslealdade e falsidade por parte do nosso taxista.

Para além de não querer trabalhar, ainda nos ficava com o dinheiro das entradas a que tínhamos direito.

Creio que todo o ser humano tem o seu lado bom, mas eu não via qualquer tipo de be-nevolência neste fulano.

Ou melhor, talvez até tenha sido um pouco malévolo e impiedoso, porque na realidade ele até tinha uma qualidade. Peculiar é certo, mas não deixa de ser um atributo ou uma mera idiossincrasia deste tipo.

Ele tinha um faro apurado para enganar os turistas. Arrisco-me mesmo a conceder-lhe mais um atributo, usando um simples superlativo para o adjetivo apurado. O fulano ti-nha um faro apuradíssimo para burlar, calotear e defraudar os turistas. Agora sim!  Soa melhor e vai ao encontro deste fulano.

Se toda esta viagem fosse um livro, ansiava com alguma voracidade o seu desfecho e por isso mesmo folheava a cada dia todas as partes menos prazerosas até ao próximo capitulo.


Naquele exato momento, não me importaria nada voltar à loja das alcatifas e poder comprar um tapete bastante especial. Um daqueles tapetes mágicos como o do Aladi-no e simplesmente voar para longe.

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