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Viagens Soltas| Perú: A cidade perdida dos Incas

Uma crónica de Rui Daniel Silva

17/08/2017 | Fonte: Texto cedido por Rui Daniel Silva

Rui Daniel Silva | Machu Pichu | Rui Daniel Silva | Machu Pichu

É certo, que o nosso planeta nos presenteia com lugares magníficos e graciosos. Uns, edificados pelo suor humano, outros concebidos pela mãe natureza. Porém, quando nutrimos a junção destes dois ingredientes, o resultado só pode ser um. Uma verdadeira obra de arte, palpável e credível para os nossos olhos.

Machu Picchu é indubitavelmente um desses lugares. Contemplar uma simples e corriqueira ilustração da “ velha montanha “ já é por si uma oferenda deslumbrante. Mas como é efetivamente encontrarmo-nos a 2400 metros de altitude e presenciar todo o panorama sobre a cidade perdida dos Incas? Para tal elucidação, terei de encetar esta crónica com um breve flashback.

Todo o prelúdio para alcançar a “ velha montanha “ tem os seus alicerces na cidade de Cusco. Conhecida principalmente por ser o ponto de partida para Machu Picchu, Cusco não se cinge somente a esse rótulo. Reúne igualmente um conjunto de elementos vistosos que encanta quem por lá passa e que não se limita a um simples folhear de um guia turístico.

A combinação de arquitetura inca e colonial apregoada pela cidade adorna ruas e ruelas de um jeito bastante peculiar. Outra particularidade notória são as inúmeras cores que embelezam cada recanto da cidade.

Entre os incontáveis mercados coloridos espalhados pela cidade, também os seus nativos dão o seu ar de graça com as suas vestes policromáticas. Um fidedigno arco-íris em movimento, onde cada artéria da cidade culmina no seu coração, a Praça de Armas.

Esta praça recebe-nos de braços abertos com a imponente Basílica Catedral e a igreja da Companhia de Jesus. Inúmeras carroças puxadas por cavalos deambulam pela praça. Todavia, a mais insólita surpresa, mas inclusive prazenteira e jocosa, é a atípica presença de incontáveis lamas que serpenteiam azinhagas e vielas. A despeito de todo o charme e formosura que Cusco ostenta, a sua localização a 3400 m de altitude suscita alguma confusão e desalinho em relação ao clima.
Tanto se sente um lépido calor, como passado um minuto já faz frio. Ora tira o agasalho, ora veste o agasalho. Parecemos modelos confusos e intrincados a divagar pela população num constante desagrado com o vestuário.

Outro transtorno devido à elevada altitude, é a falta de oxigénio, que provocava algum cansaço, tonturas e dores de cabeça. Nos arredores de Cusco encontram-se inúmeras ruínas incas. Sacsayhuamán é um desses exemplos. Uma enorme fortaleza com gigantescas pedras, que servia outrora para amparar os seus autóctones de possíveis afrontas.

Mas este templo é apenas um esboço e um sucinto prefácio para toda a mestria e perícia do povo inca. O grande colosso é, sem dúvida, Machu Picchu, e assim sendo, vou abalar num trajeto fugaz, que abrange um aglomerado de traços incas incríveis, pelo caminho até chegar a Ollantaytambo. Esta povoação é um dos pontos de partida para a velha montanha e é a partir daqui que se embarca numa alucinante viagem de comboio até Aguas Calientes.

Acompanhando o percurso do rio Urubamba, toda a locomoção é de uma beleza singular. No alto da cordilheira, o branco da neve contrasta com o verde das montanhas, num egrégio quadro bucólico. Finalmente em Aguas Calientes, o tão cobiçado destino avizinha-se aos poucos. Hora de auferir alguma energia, é tempo de descansar para madrugar no dia seguinte. Tal era a ansiedade que, pela primeira vez na vida, não necessitei de me debater para acordar cedo. Entre uma leve neblina matinal, uma romaria de viajantes dos quatro cantos do mundo faziam fila na praça principal.


Todos com o mesmo objetivo, apanhar um autocarro até ao santuário de Machu Picchu. Ziguezagueando um afunilado trajeto até ao topo, a imagem vertiginosa de escarpados precipícios agilizava o ritmo cardíaco. Um misto de aversão e impaciência. Finalmente no topo, a peregrinação prossegue entre uma tacanha vereda ao ritmo de cada passada.


O nevoeiro era um delicado contratempo que atrapalhava a visibilidade. Mas onde estava, afinal, a tão desejada cidade perdida? Como um rufar dos tambores, as nuvens sumiam uma a uma. Sorrateiramente, o efeito surpresa entrava em cena como um abrir de cortinas para o tão desejado cenário, até termos diante de nós, Machu Picchu. Se tivesse de definir numa só palavra este lugar, diria “sonho“. Mas se me concedessem um cartão de crédito com plafond ilimitado para adjetivar Machu Picchu, abusaria de todas as palavras de cariz benevolente, na descrição deste paraíso. A paisagem é simplesmente magnífica e sublime.

Na língua quechua, Machu Picchu significa velha montanha e a alcunha de cidade perdida deve-se à sua descoberta tardia, no ano de 1911. A 2400 m de altitude, este encantador complexo formado por várias casas e templos encontra-se no meio das montanhas do vale Urubamba, em plena cordilheira dos Andes. É visível toda a destreza e perícia do povo inca, onde pedra sobre pedra edificou uma imponente e prodigiosa cidade no pináculo de uma montanha.

Os vários socalcos que compõem esta cidade elevam-se de forma graciosa, tocando o céu como uma invocação aos deuses. Seduzidos e arrastados por uma força superior insondável, sentimo-nos presos por uma corrente invisível que teima em não nos conferir um adeus. Não é por acaso que Machu Picchu faz parte das novas sete maravilhas do mundo. Num lugar tão primoroso e perfeito como este, palavras como utopia, quimera ou miragem deixam de fazer qualquer sentido. Afinal de contas, o paraíso existe mesmo e está ali, diante de nós. Neste genuíno paraíso, não precisamos de ser atingidos pela seta do Cupido para nos apaixonarmos. Aliás, em solo inca, o deus Cupido estaria certamente desempregado. Numa só palavra, concluindo este epílogo. Machu Picchu é mágico.

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