O historiador do Ibo
João Baptista com 82 anos é um museu vivo
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Cruzamo-nos com ele junto do Fortim de São José sentado numa moto a alta velocidade. Sabe cada detalhe dos monumentos da ilha do Ibo, situada no Arquipélago das Quirimbas, em Moçambique.
Aliás, à entrada da sua casa pode ler-se “João Baptista conselheiro e historiador da ilha do Ibo”. Foi aqui que nasceu em 1927 e, por ele passaram 42 Governantes, entre eles os portugueses. Nessa época trabalhava na secretaria da Alfândega como dactilografo, acabando por secretamente ter acesso aos documentos confidenciais.
Sabe todas as datas. Todos os nomes. Conta detalhes do tempo do comércio de escravos, da troca de especiarias, das lojas indianas de seda, das plantações de café e dos hindus que queimavam os corpos mandando as cinzas para o mar e, por isso deixaram de comer peixe com receio de estar a ingerir um antepassado. Lembra-se da história de cada Fortim e de cada casa.
Leva-nos numa viagem pelo tempo. Gesticula com os braços, os seus olhos cintilam de prazer. Vivaços.
A ilha do Ibo é muito importante na formação da história de Moçambique. No século XVII foi capital e a sua localização estratégica permitia aos portugueses o controlo das rotas comerciais. Holandeses, franceses, malgaxes todos a tentavam conquistar mas a Fortaleza de São João Baptista, Fortim de S. José e Fortim de S. António nunca o permitiram. Estes estão agora a ser recuperados.
Após a saída dos portugueses a guerra civil também lhe deixou algumas recordações, nomeadamente as 24 horas que esteve preso e de onde pensou já não sair, pois no local onde dormiu lia-se na parede: “Entra vivo, sai morto!” E desse dia tem muitas histórias para nos contar.
Lembra-se dos presos em fila para irem à latrina dos cinco burcos, de se pagar 25 contos para entregar alguém à polícia. Da cozinha, da capela, do local onde colocavam os corpos após serem abatidos. Sobe as escadas num frenezim e junto aos canhões, aponta: “Está a ver aquela palmeira era ali que os colocavam e os cães vinham à noite comê-los. Cheirava muito mal, então começaram a levá-los para o mar e deixavam-nos lá vivos.
Eu não li. Eu vi”, diz, alçando o dedo em riste, continuando: “Já estes canhões faziam bum, bum apenas para assinalar a passagem de ano.” Mas melhor do que ler é ver a sua entrevista ou as suas fotografias. O Sapo gravou tudo.
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